- Enquanto a gente da política alfacinha se rebola de contentamento com o “estrondoso” sucesso das negociações de bastidores que conduziram ao acordo para a consumação do novíssimo tratado de Lisboa, os cidadãos do Interior não encontram razões para festejos.
Pelo contrário, as expectativas para o futuro são cada vez mais sombrias, anunciando uma vertiginosa precipitação da agonia irreversível.
Depois das vagas esperanças do Abril dos cravos, o desânimo e a resignação têm corroído as gentes que não quiseram engrossar a torrente de proletarizados despejada nos subúrbios da faixa litoral. Desânimo e resignação, filhos do cansaço de mil lutas, de anos de raiva contida pela exaltante convicção de que não haveria a sorte de ser sempre madrasta. Postura do desesperado perante a roleta que lhe troca os olhos e as voltas da vida.
Assim se ficaram a olhar o infinito sem nome, enquanto outras apostas atulhavam panças de bem viver e folguedos de novos ricos, sem raízes nem referências, rendidos ao gozo efémero dos mais diversos jogos de espelhos.
Se fossemos hoje por esta nossa terra, onde as cabeças, alvas de neve, pontuam a paisagem triste, reflectida nos sulcos profundos dos rostos, para sentir os suspiros do fim, colheríamos certamente lamentos sobre a má sorte que marcou gerações de gentes do Interior e, talvez, apelos para que os que aí vêm fechem os olhos e a alma e esqueçam para sempre este rincão.
Parece que a história só nos trouxe azar nestes mais de 800 anos passados sobre o henriquino voluntarismo. Era tempo de a sorte mudar. Mas, se olharmos para os tempos próximos, constatamos que o reconhecimento da injustiça secular a que fomos submetidos deu corpo a discursos vários, aparentemente sentidos, assim como a solenes proclamações de arrependimento e promessas de redenção. Mas, na verdade, nenhuma atitude, nenhuma decisão correspondeu ao proclamado.
Acenam-nos com o direito à sorte mas só induzem o nosso azar, como numa banca onde se joga com os dados viciados. Enquanto a terra se esvazia, adiam-se as infra-estruturas que lhe poderiam trazer sangue novo, à espera que já não haja remédio. Assim tem sido, aliás, desde há mais de duas décadas.
Carpideiras cínicas têm vindo, vestidas de todas as cores, chorar por encomenda e nós continuamos a maldizer a sorte, quando devíamos tê-las expulsado e procurado a respiração profunda que nos renovasse, em vez de nos asfixiarmos em sucessivos rituais fúnebres.
Há uns tempos um meloso catolicão veio dizer-nos que, finalmente, em nome dos grandes princípios da justiça e da solidariedade, nos iria colocar no mapa. Pensámos que era no mapa das prioridades, do investimento potenciador de progresso, do respeito que merecemos.
Má sorte outra vez, a nossa. Quando abandonou a barca, que há-de tomar o caminho do inferno, estávamos comparativamente pior porque, entretanto, as Gomorras do litoral foram engolindo avidamente gente e recursos.
Antes dele, outro “gato pingado”, para acelerar o desenlace, havia retirado o caminho de ferro, acenando com alternativas que serviriam com mais “eficácia” e “racionalidade económica” as populações. Ainda hoje estamos à espera da conclusão do IP4 que, não cumprindo a função prometida, se revelou um extenso matadouro, servindo à maravilha inconfessadas intenções de aniquilação destas gentes.
Foi mais uma vez má sorte… Até parecia que o homem estava cheio de boas intenções. Aliás, muitos ainda nele quiseram depositar confiança, quando deram um contributo marcante para que atingisse a suprema magistratura do país.
Entretanto, com aura de integridade, grandiloquente na proclamação de respeitáveis princípios, fino de trato e aparentemente empenhado em actos solidários, passou pelo cadeirão de Belém Jorge Sampaio. Não denunciou as piedosas mentiras do fazedor de mapas e pretendeu mesmo lavar as suas próprias mãos, com duas ou três visitas inanes ao distrito.
Só mesmo a má sorte nos podia ter surpreendido outra vez. Tenha-se em conta a forma como todo o resto do território foi recortado pelas vias de comunicação, pontes, cravado de empresas, prolongamentos de “metros”, perspectivas de aeroportos, monumentais estádios de futebol e etc., que ele aplaudiu, sem se lembrar de chamar à atenção para a necessidade de uma pinga que fosse para dar alento ao agonizante Nordeste.
Por cá, durante os velórios aparecem sempre uns tipos, talvez necessitados de tranquilizar as próprias consciências, que tornam leve a dor com umas anedotas. Assim aconteceu com um auto-proclamado transmontano, qual prestidigitador, que animou a malta com promessas de universidade e sede do ICN. Que sorte poderia ter sido, não fora tratar-se de refinadas aldrabices.
Temos agonizado neste ambiente de jogo de azar com a morte. De vez em quando, também nos damos conta da presença de alguns que esperávamos falassem por nós, alto e bom som, denunciando as tramas urdidas. Afinal, rodeiam a mesa, como nas tascas, e revelam o nosso fraco jogo, piscando o olho e fazendo trejeitos, de modo a que os seus amos se refastelem sobre a nossa desgraça.
Também haverá quem atribua à má sorte calhar-nos esta classe de representantes. No entanto, pelo menos a nossa dignidade ainda pode ser reposta. Basta que busquemos, no alento que nos resta, a força para lhes atirar com as cartas à cara, revirar a mesa e impor-lhes que nos deixem em paz. Porque a nossa sorte fazemo-la nós. -
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